“Deus e Senhor nosso, Jesus Cristo”

A tradicional versão de Judas 1:4, tão aclamada  pela nossa envelhecida ortodoxia cristã, diz: “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo“.

Nenhum trinitário contestaria “a verdade” transmitida por essa tradução, no entanto, essa construção pode não ter sido planejada no contexto de Judas.  Apenas alguns versículos anteriores, em Judas 1: 1, ele, Judas, além  de fazer distinção entre Jesus e Deus, não reservou o título divino para Cristo: “Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos que foram chamados, amados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo“. Ele citou duas vezes o nome de Jesus, mas uma vez o nome de Deus, não conectando o título a Cristo. Há também uma distinção de função para cada pessoa neste contexto. Judas 1: 4 pode muito bem ser uma continuação dessa distinção entre as duas pessoas consideradas da Trindade. Somente Deus é Deus, e Jesus é nosso Senhor, como veremos mais adiante.

Alguns textos acrescentam o nome  “Deus” em estreita proximidade com “Jesus Cristo”, e isso faz com que os trinitarianos acreditem que há aqui uma prova da Trindade. Na verdade, a ideia trinitariana foi querer transformar Jesus em Deus, um segundo Deus. Ou seja, Deus e Cristo como sendo a um só em divindade e essência. Na verdade, vamos descobrir que tudo isso foi construído por causa de corrupção textual. Nem tudo é tão simples como pode parecer, mas há um erro grave na tradução aqui. Por isso é muito importante não usar uma tradução incorreta.

Observem como as traduções da Igreja Católica, berço do Trinitarianismo, verteu o versículo de Judas. Créditos para Valdomiro Filho:

“A Bíblia do Peregrino verte assim: “… que traduzem o favor de Deus em dissolução e renegaram o único patrão, o Senhor nosso Jesus Cristo“.

Já a “Bíblia do Pão” (Editoras católicas Vozes e Santuário) assim verteu o texto: “… que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam nosso único Senhor, Jesus Cristo”.

A CNBB entendeu: “… pois abusam da graça de nosso Deus para a devassidão e negam o nosso único soberano e Senhor, Jesus Cristo.”

A BJ traduziu: “… que convertem a graça de nosso Deus num pretexto para licenciosidade e negam Jesus Cristo, nosso único mestre e Senhor”.

O padre Matos Soares, da vulgada latina, traduziu: “… os quais trocam a graça do nosso Deus em luxúria, e negam a Jesus Cristo, nosso único Dominador e Senhor.” (1)

Observem agora algumas traduções consideradas protestantes que seguem a mesma linha. Vamos começar com a ARA de 1993: “… homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo“.

A Almeida Atualizada, diz: “… homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo“.

Outra Almeida Atualizada, a de 1987, apresenta o verso dessa forma: “… homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo“.

A NTLH acrescenta: “…  Eles torcem a mensagem a respeito da graça do nosso Deus a fim de arranjar uma desculpa para a sua vida imoral. E também rejeitam Jesus Cristo, o nosso único Mestre e Senhor“.

Muitos críticos e tradutores textuais reconhecem que   as traduções modernas não podem ser lidas dessa maneira: “… negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”.

Na maioria das traduções temos o Senhor Deus (ho theos)  enquanto Jesus é chamado de “NOSSO Senhor Jesus” (Κύριον – Kyrion).  Como a Bíblia afirma claramente, Jesus foi feito nosso Senhor por Deus: “Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse mesmo Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36).

Essa distinção é vital e é evidente ao longo do livro de Judas: “Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda” (1:9). O Senhor aqui é o próprio Deus.

Judas ainda se refere a Deus como o único Deus sábio: “Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” (1:25).

Novamente Judas se refere a Jesus como nosso Senhor nos versículos 17 e 21, e não como Deus:

Judas 1-17 “Mas, amados, lembrem-se das palavras que foram ditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo“.

Judas 1-21 “Mantenha-se no amor de Deus, procurando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna”.

Note a distinção nos títulos. Note também que quando Judas, no verso 25, ao dizer sobre Deus como “o único Deus sábio, nosso Salvador”, ele não acrescentou o nome Jesus em seguida. Observem que quando ele chama Jesus de Senhor nos dois versos citados acima ele não conecta Jesus ao nome Deus. Se você não observou, posso repetir os textos para que possa entender melhor. Veja que a versão trinitariana de Judas 1:4  diz que homens ímpios, que querem transformar em libertinagem a graça de Deus “… negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”. Porém, o texto do versículo 25 diz, “Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder” que não é uma referência a Jesus, mas aponta para o Deus de Israel. De fato, Judas, um judeu monoteísta jamais poderia se referir a Jesus como o “único Deus sábio”. Único e dominador são títulos para o Pai, não para Jesus. As versões, tanto católicas como protestantes, erraram ao emprestar o título de Único Dominador para Jesus, apesar de não chama-lo de Deus fazendo distinção entre ele e o pai.

Há algo mais incomum em algumas traduções de Judas 4, que  é a aplicação de  “Soberano” traduzido do grego “Despotēn” para Jesus, aliás, isso é incomum no NT. “Despotēn” aqui deveria ser traduzido apenas como Mestre e Senhor (“Despotēn kai Kyrion”) . O único soberano é o Pai (I Tim 6;15).

Além disso, parece que esses escribas não queriam que o leitor (como alguns monarquistas antigos) confundissem/separassem Jesus e Deus, e tentaram esclarecer adicionando a palavra “Deus”. Por outro lado,  não há problema em chamar Deus e Jesus de “Mestre”, assim como não há problema em chamar cada um de “Senhor” – desde que deixemos claro qual é o significado!

Evidentemente, se fosse de  acordo com a lógica trinitariana, Sara era uma pessoa muito confusa e pensava que seu marido era Deus, pois Ela chamou Abraão de senhor, como mostrado em 1 Pedro 3: 6.  Suponho que uma maneira de explicar isso é alegar que ela estava bêbada.  Mas espere, a passagem está incentivando as mulheres cristãs a serem como Sara: “como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor; da qual vós sois filhas, se fazeis o bem e não temeis nenhum espanto“.

Também devemos lembrar que Judas, o autor da passagem em questão, era  irmão de Jesus.  Eles cresceram juntos.  Se ele acreditava que Jesus era totalmente Deus, Judas deveria ter conhecido e defendido esse fato com grande clareza, mas não, ele chama o Pai no versículo 4 de “Θεοῦ” (“Theou”, ou “ho theos“), que quer dizer “Deus”, mas usa “nosso Senhor” para Jesus. Jesus é Senhor de Judas, não de Deus.

Por fim, para desfazer toda essa anomalia trinitariana, vou adicionar aqui a tradução que parece ser mais coerente com o contexto bíblico e a mais próxima dos originais,  a versão da “BJ”, que assim verteu a segunda parte do texto em discussão: “… que convertem a graça de nosso Deus num pretexto para licenciosidade e negam Jesus Cristo, nosso único mestre e Senhor”.

  1. FILHO, Valdomiro – Judas v 4

Deus seja louvado


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